É notória e já foi cotejada em inúmeros textos a importância da
leitura; entretanto, tomaremos
como norte não apenas a importância da leitura, mas o tipo de leitura
que se faz importante e como se configuram seus leitores.
Ingedore Villaça Koch e Vanda Maria
Elias apontam para três perspectivas de leitura: a primeira, cujo foco
está centrado no autor, que se mostra um sujeito individual e produz
seu texto por meio da língua, entendendo-o como um produto do seu
pensamento. A leitura aqui é vista como um ato de captação de
representações programadas. Essa visão se distancia do que conceitua
Goodman, para o qual a leitura é uma atividade que se estabelece entre o
pensamento e a linguagem. Todos os gêneros podem proporcionar esse
tipo de leitura em que o leitor parte deste princípio: vê o texto como
um produto acabado, cujas ideias representam máximas a serem aceitas,
sem reflexão.
A segunda perspectiva de leitura tratada por Koch e Elias centra-se no
texto: a língua é vista como um código tanto pelo autor quanto pelo
leitor e a leitura se dá apenas no nível do enunciado, tudo está dito no
dito. A maioria dos livros que aparecem na lista dos mais vendidos
pode proporcionar esse tipo de leitura linear. Tudo é desvendado para o
leitor pelo texto, por meio de descrições e diálogos, pelo explícito. O
livro de mistério mostra o mistério em cada página, o envolvimento
romântico é desnudado a cada linha; página lida, informação recebida;
página virada, parte-se para outra informação, esquecendo-se da
anterior, sem reflexão nenhuma.
Tal
leitura não torna o leitor consciente de seu papel. Podemos dizer que
esse é um tipo de leitura linear, em que preocupação do leitor está
voltada apenas para as palavras e a estrutura textual.
Monteiro Lobato repudiava esse tipo de leitura, em suas cartas
endereçadas ao amigo e também escritor Godofredo Rangel, editadas sob o
título de A Barca de Gleyre, relatou as dificuldades de produzir um
texto em que os "enfeites literários" não fossem os mais importantes.
Monteiro Lobato, em A Barca de Gleyre , como citado em Metalinguagem e marcas de oralidade em Monteiro Lobato, de Simone Strelciunas Goh. Grifo nosso.
O autor não enxerga o seu texto como algo acabado, mas vê no leitor uma
voz diferente da sua, que vai a busca de perguntas, não enxergando o
texto apenas como resposta para suas dúvidas ou aflições.
O leitor que assim se configura como "leitor ideal" é temido pelo
escritor, pois de certa forma irá subverter seus pensamentos na busca
por infinitas interpretações. Machado de Assis tinha plena consciência
da importância dos leitores como reconstrutores de seus pensamentos, o
Bruxo do Cosme Velho tratava-os de forma especial, indagando-os. O
grande escritor trazia para cada página de seus livros o inesperado,
forçava os leitores às inferências, inquirindo-os a construir a
história com ele.
Conceituados os tipos de leitura, verifica-se que o problema não reside
no ato de ler em si, mas como ele é norteado. Todos somos leitores
(não discutiremos aqui sobre os níveis de letramento), até Fabiano de Vidas Secas é
um leitor na medida em que lê (de sua forma) as linguagens de seu
meio, mas não lê a palavra escrita, está longe de ser um leitor comum,
quiçá ideal.
Um dos nossos objetivos é incentivar a leitura de textos escritos, não
apenas daqueles legitimados pelos acadêmicos como "boa leitura", mas os
escolhidos livremente.
Muitos livros vendidos na Bienal têm como foco a primeira e a segunda
visão de leitura, seus autores enxergam o texto como um fim em si
mesmo, apresentando ideias prontas, ou primando pelo seu trabalho como
um objeto de arte, em que o domínio da língua é a base para a leitura.
Assim, cabe-nos refletir inicialmente sobre como transformar um leitor
comum em leitor ideal, um cidadão pleno em relação a sua identidade. A
construção da identidade social é um fenômeno que se produz em
referência aos outros, a aceitabilidade que temos e a credibilidade que
conquistamos por meio da negociação direta com as pessoas. A leitura é
a ferramenta que assegurará não apenas a construção da identidade,
como também tornará esse processo contínuo.
Para tornar isso factível podemos, como educadores, adotar estratégias
de incentivo, apoiando-nos em textos como as tirinhas e as histórias em
quadrinhos, até chegar a leituras mais complexas, como um romance de
Saramago, Machado de Assis ou textos científicos. Construir em sala de
aula relações intertextuais entre gêneros e autores também é uma
estratégia válida.
A família também tem papel importante no incentivo à leitura, mas como
incentivar filhos a ler, se os pais não são leitores? Cabe à família
não apenas tornar a leitura acessível, mas pensar no ato de ler como um
processo. Discutimos à mesa questões políticas, a trama da novela, por
que não trazermos para nosso cotidiano discussões sobre os livros que
lemos?
Fonte:http://linguaportuguesa.uol.com.br/linguaportuguesa/gramatica-ortografia/32/artigo235676-1.asp